Informe Seminário Internacional - Auditoria da Dívida na América Latina - Brasília, 12 a 14 de novembro de 2008
Nos dias 12 a 14 de novembro de 2008 realizou-se, em Brasília, o Seminário Internacional “Auditoria da Dívida na América Latina”, uma iniciativa da Red Latindadd e da Auditoria Cidadã da Dívida, que contou com o apoio de entidades nacionais e internacionais, especialmente o Conselho Latino-americano de Igrejas (CLAI).
AUDIÊNCIA PÚBLICA NA CÂMARA DOS DEPUTADOS
A primeira parte do Seminário Internacional foi realizada no Parlamento brasileiro, dia 12 de novembro, pela manhã, em uma Audiência Pública da Comissão de Finanças e Tributação da Câmara dos Deputados. Presidiu a Audiência o Presidente da Comissão, Deputado Pedro Eugênio (PT/PE). Parte dos debates foram presididos pela Deputada Federal Luciana Genro (PSOL/RS).
O objetivo central da Audiência foi divulgar aos parlamentares brasileiros e ao público em geral a experiência de auditorias realizadas por países da América Latina, mostrando a viabilidade deste instrumento como uma alternativa de ação frente à dívida, que permite o acesso a documentos e o conhecimento da realidade sobre o processo de endividamento, propiciando a tomada de decisões soberanas. De acordo com a Constituição Federal Brasileira de 1988, cabe ao Parlamento brasileiro a realização desta auditoria que, no entanto, jamais foi realizada. Foi destacada a experiência da Comisión para la Auditoria Integral del Credito Publico do Equador (CAIC) como um exemplo a ser seguido pelo Brasil que, caso realize sua auditoria, fortaleceria imensamente esta iniciativa em todos os demais países latino-americanos.
Os expositores da Audiência Pública realizada na manhã de 12 de novembro foram: Maria Lucia Fattorelli (Auditoria Cidadã da Dívida no Brasil e Membro da CAIC/Equador), Wilma Salgado (Ex-Ministra de Finanças do Equador), Deputado Pedro Eugênio (PT/PE, Presidente da Comissão de Finanças e Tributação da Câmara dos Deputados), Inês Arias (Jubileo Peru), Roberto Colman (Comissão de Auditoria da Dívida do Paraguai) e Hugo Arias (Presidente da Rede Latindadd e Membro da CAIC/Equador). A Deputada Luciana Genro (PSOL/RS) Também presidiu a audiência.
As descobertas da auditoria equatoriana revelaram incríveis semelhanças entre a dívida do Equador e o processo de endividamento dos demais países latino-americanos, que também deveriam realizar auditorias e enfrentar o problema conjuntamente. Destacou, também, que com a crise financeira, o debate sobre a dívida terá de ser necessariamente colocado na pauta, pois está ficando mais difícil a rolagem da dívida interna brasileira, uma vez que os emprestadores exigem juros maiores e prazos mais curtos.
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CONTINUAÇÃO DO SEMINÁRIO: AUDITÓRIO DO CONSELHO FEDERAL DE CONTABILIDADE
O Seminário Internacional “Auditoria da Dívida na América Latina” prosseguiu sua realização no Auditório do Conselho Federal de Contabilidade em Brasília, nos dias 12, 13 e 14 de novembro de 2008.
Na mesa de abertura do Seminário, no Conselho Federal de Contabilidade, Wilma Salgado (Ex-Ministra de Finanças do Equador), Silvia Cavalcante (Vice presidente do Conselho Federal de Contabilidade), Hugo Arias (Presidente da Rede Latindadd e Membro da CAIC/Equador), Angel Bonilla (Centro de Direitos Econômicos e Sociais – Equador / CAIC), e Dra. Patrícia Junqueira (Ordem dos Advogados do Brasil)
A Vice-presidente do Conselho Federal de Contabilidade, e anfitriã do evento, Silvia Cavalcante, saudou os participantes do seminário e ressaltou a importância da iniciativa da auditoria equatoriana para a classe contábil. Citou os importantes apoios que o Conselho tem dado à Auditoria Cidadã da Dívida, a exemplo da impressão de 12 mil cartilhas “ABC da Dívida” e da disponibilização da infra-estrutura para o evento. Os representantes equatorianos (Wilma Salgado, Hugo Arias e Angel Bonilla) também saudaram os participantes, e destacaram a importância deste evento histórico, pela sua realização em um contexto de divulgação e conclusão dos trabalhos da comissão de auditoria da dívida equatoriana. A representante da Ordem dos Advogados do Brasil, Dra. Patrícia Junqueira, ressaltou a contribuição da OAB sobre o tema, em especial a Arguição de Descumprimento de Preceito Fundamental n° 59/2004, impetrada pela Ordem junto ao Supremo Tribunal Federal, que busca exigir do Congresso Nacional o cumprimento do Artigo 26 das Disposições Transitórias da Constituição de 1988, que prevê a auditoria da dívida.
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A seguir, foi realizado painel sobre os aspectos jurídicos da CAIC, que contou com Ana Mary da Costa Lino Carneiro (Instituto de Desfesa dos Direitos Humanos) como coordenadora, Angel Bonilla (CDES/CAIC) e Franklin Rodrigues da Costa (Auditoria Cidadã da Dívida) como expositores. Foram detalhados os argumentos jurídicos utilizados no questionamento da dívida equatoriana.
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Na tarde do dia 13, ocorreu painel sobre casos de auditoria ocorridos em países latino-americanos, com a coordenação de Ivo Poletto (Pastorais Sociais). Os expositores foram Ines Arias (Jubileo Peru), Beverly Keene (Argentina / Rede Jubileu Americas), Patricia Miranda (Fundação Jubileu-Bolivia) e Roberto Colman (Frente Social e Popular – Paraguai). A exposição destes casos serviu como base para os trabalhos em grupo, a seguir, que estabeleceram propostas concretas de ação para a realização das auditorias das dívidas.
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Fechando o Seminário, foi realizado painel, na manhã de sexta feira (dia 14 de novembro), que buscou estabelecer as estratégias para as redes internacionais no trabalho de luta pelas auditorias da dívida. Coordenou este painel Romulo Torres (Rede Latindadd), e os expositores foram Angel Bonilla (CDES/CAIC), Eric Toussaint (CADTM/Belgica), Maria Lucia Fattorelli (Auditoria Cidadã da Dívida / CAIC), Franklin Canellos (CLAI/CAIC) e Ivo Poletto (Jubileu Brasil e Pastorais Sociais).
Ao final do evento, foi aprovado o Comunicado do Seminário, que se encontra ao final deste Informe.
Fotos: Antônio Jacinto
AUDIÊNCIA COM O PRESIDENTE DA CÂMARA DOS DEPUTADOS
No dia 13 de novembro, o Presidente da Câmara dos Deputados recebeu em audiência uma delegação do Equador, que explicou a importância da Auditoria equatoriana, e do significado, para a América Latina, de um procedimento semelhante que deveria ser realizado pelo Brasil, em cumprimento à Constituição Federal.
Na Audiência com Arlindo Chinaglia (Presidente da Câmara dos Deputados), Hugo Arias (Presidente da Rede Latindadd e membro da CAIC), Maria Lucia Fattorelli (Coordenadora da Auditoria Cidadã da Dívida e membro da CAIC), Wilma Salgado (Jubileo 2000 e Ex Ministra de Finanças do Equador) e Franklin Canellos (CLAI, e Vice Presidente da CAIC). Foi reivindicada a instalação da CPI da Dívida Pública, que já conta com as assinaturas necessárias de parlamentares.
Dia 8 de dezembro de 2008, a CPI foi criada pelo Presidente da Câmara dos Deputados
COMUNICADO DO SEMINÁRIO INTERNACIONAL
“AUDITORIA DA DÍVIDA NA AMÉRICA LATINA”
Representantes de entidades do Equador, Brasil, Argentina, Paraguai, Peru, Bolívia, Bélgica e das redes internacionais CLAI (Conselho Latino-americano de Igrejas), Latindadd (Rede Latino-americana sobre Dívida, Desenvolvimento e Direitos), Jubileu Sul Americas e CADTM (Comitê pela Anulação da Dívida do Terceiro Mundo), reunidos em Brasília, nos dias 12 a 14 de novembro de 2008, no Seminário Internacional “Auditoria da Dívida na América Latina” para difundir a auditoria oficial feita pelo governo Equatoriano e outras iniciativas que agora se iniciam, conclamam a todos os governos e movimentos sociais da América Latina que se unam a este esforço.
A América Latina vive um tempo de avanços na caminhada de libertação de seus povos. Destacamos a realização, por parte do Governo do Equador, da Auditoria Integral da Dívida Externa e Interna (CAIC), cujo relatório final será apresentado publicamente em Quito pelo Presidente Rafael Correa no próximo dia vinte de novembro de 2008. Esta Auditoria expressa a vontade política soberana dos povos do Equador de conhecer a verdade sobre a dívida para terem condições de decidir o que fazer em relação a esse processo que gera sacrifícios dos direitos da maioria de sua população.
Significado político das auditorias da dívida
A crise capitalista, evidenciada pela crise financeira, econômica, ambiental, alimentar e social, tem seu custo cobrado, mais uma vez, dos empobrecidos. Por isso, a presente crise é um momento oportuno para mostrar à sociedade a interferência e a dominação das instituições financeiras sobre os países que se endividaram.
A Auditoria é um instrumento que revela a verdade sobre o processo de endividamento e que a ajuda a mostrar a falsidade do sistema capitalista e a corrupção que o caracteriza. Demonstra a violação da soberania, as imposições e cláusulas abusivas, revelando como todos os processos de renegociação e reciclagem da dívida foram instrumentos de saque, implicando aumento da dívida.
Ao contrário do que é dito pelo governo e pela mídia, dívida pública não acabou, e continua sendo, cada vez mais, o centro dos problemas nacionais, e representa o pano de fundo para as reformas neoliberais, como as da previdência.
O significado político da auditoria é tornar pública a co-responsabilidade do endividamento pelos países emprestadores e governos do Sul, mostrando que essa dívida já foi paga e que somos, na realidade, credores. A auditoria revela as assimetrias entre os países, aprofundadas pelas relações de endividamento; mas ela pode, também, evitar que essas assimetrias se perpetuem, e ajuda a desenvolver um processo educativo que possibilita aos povos terem certeza de que a dívida é fraudulenta e ilegítima.
A Auditoria da dívida é um dos instrumentos para reconquistar a soberania. Ao tornar-se oficial, com participação da sociedade civil, como no caso do Equador, significa a vitória das organizações sociais. A luta não se esgota na Auditoria, mas ela é importante para o enfrentamento da dívida, contra a reforma liberal do Estado, e deve ligar-se às lutas mais amplas em favor dos direitos humanos e das transformações estruturais da sociedade.
Sobre a base das Auditorias, os governos podem decretar de forma soberana a anulação da dívida ilegítima.
Estratégias de ação
Diante disso, o debate do Seminário sugere as seguintes propostas:
- divulgar amplamente a Auditoria oficial realizada pelo Equador (CAIC) em todos os países da América Latina, criando uma visão positiva sobre o processo; divulgar também as conquistas presentes na Constituição equatoriana e lutar para que sejam incluídas nas Constituições dos outros países regras que evitem endividamentos ilegais e ilegítimos;
- divulgar outras iniciativas de Auditoria (Paraguai, Argentina, Peru) e a Auditoria Cidadã da Dívida.
- divulgar a posição da Noruega ao reconhecer a co-responsabilidade nos empréstimos ilegítimos a 5 países – Equador, Egito, Jamaica, Peru e Serra Leoa – e cancelar unilateralmente a dívida.
- criar mais oportunidades de estudo e debate sobre a dívida em todos os setores e organizações sociais, sindicatos, igrejas, universidades, provocando mobilizações, ações, alianças; buscar simpatizantes;
- desenvolver estratégias para ingresso à mídia e criar redes de informação próprias, internet, publicações populares;
- que cada entidade ligue suas lutas específicas com a problemática da dívida;
- realizar uma atividade para capacitar pessoas para os trabalhos de auditoria através da socialização da metodologia utilizada na Auditoria do Equador;
- sistematizar as experiências de Auditoria da dívida e, tendo por base a prática do Equador, construir uma metodologia de auditoria integral da dívida, exemplificando com casos concretos auditados e tipificando penalmente os casos recorrentes.
- criar um manual para guiar a contratação de créditos, com base nas descobertas da CAIC e outras auditorias, e que possa ser utilizado pelas entidades para o exercício do controle social em todo o processo de endividamento.
- caminhar na direção da constituição de um fórum integrado pelas entidades que buscam a realização das auditorias da dívida; fazer um planejamento do movimento, prevendo os recursos necessários;
- fazer pressão cidadã de comitês estaduais, regionais e nacionais sobre os parlamentos em favor de auditorias oficiais;
- fazer um balanço das lutas e aprofundar o debate sobre a dívida na América Latina no próximo Fórum Social Mundial de Belém, Brasil;
- construir um conjunto de indicadores sociais, relacionando a Dívida com direitos humanos, exclusão social e outros aspectos sociais afetados pelo endividamento público;
- trabalhar para que o governo do Equador proponha que os governos dos demais países façam auditorias para terem argumentos em favor do não pagamento da dívida ilegítima;
- que os membros da CAIC, ao tornar-se público seu relatório, busquem uma forma de colocar sua experiência à disposição dos países, criando oportunidades para encontros entre pessoas que atuam em movimentos socais e governos da região;
- exigir das autoridades que têm como função acompanhar o endividamento que assumam suas responsabilidades;
- avançar no processo de judicialização da dívida;
- ampliar a solidariedade com o Equador e o Paraguai em suas demandas contra contratos abusivos com empresas brasileiras, como a Odebrecht e Eletrobrás (caso Itaipu); empreender auditorias sobre esses casos, e exigir sanções, soluções justas e reparações;
- ligar a luta pelas auditorias com a construção de uma nova ordem financeira regional e internacional;
- Aprofundar os estudos e trabalhos relacionados à crise atual, denunciando o uso de recursos públicos para salvar os grandes bancos especuladores às custas do aumento da pobreza e da exclusão de nossos povos.
- Exigir que os países e instituições emprestadoras paguem sua dívida com os países “devedores”
- Buscar maior compromisso das redes e instituições. Realizar evento de planejamento de ações conjuntas.
Com essas tarefas e objetivos, as entidades promotoras e participantes do Seminário Internacional desejam e esperam contar com a adesão de mais forças políticas dos povos latino-americanos para implementarem auditorias das dívidas externa e interna que apressem sua libertação da dominação e saque que elas representam.
Brasília, 14 de novembro de 2008.














